Estamos em realidades muito distintas. Existe uma não só para cada indivíduo, como para cada sentido de uma criatura. Uma pessoa surda tem menos uma dimensão sensorial na sua soma de realidades, mas a natureza dos sentidos faz com que essa soma não seja uma soma, e sim uma fórmula mais complexa, à medida que se adicionam e retiram perspectivas.
E essas perspectivas mudam, tal como as estações do ano, ao longo do espaço-tempo.
Tendo isto em conta (encontramo-nos aqui numa nova realidade temporária, enquanto se lê esta frase), é espantoso como esta complexidade actua no backstage do universo, e podemos simplesmente olhar nos olhos de outra pessoa e a entender quando ela nos fala das experiências - isto para não falar de todo o milagre que é a linguagem, um colosso em si no que toca a coisas extraordinárias.
É a tal noção de que vivemos num rio de improbabilidades. A relatividade diz-nos que tudo o que existe é incerto, visto que a única certeza é a sua ausência.
Tocando flauta, plenamente audível nas traseiras de cada mente, um pequeno ser pisca o olho à nossa curiosidade.
- Ei, o que estás aí a fazer? -.-
- Eu?
- Não vejo aqui mais ninguém... sim, tu.
- Ora, eu apenas sou filler.
- Filler?
- Sim, conteúdo cinzento, um pouco como o cimento, uma sinapse entre o nada e o nada depois desse nada, não confundir com o nada anterior a esse nada, esse é outro nada, não um dos nada que referi.
A flauta continua.
- De qualquer maneira, eu não perguntei o que eras, mas sim o que estás a fazer... -.-
- Sim, e ainda utilizaste a palavra "aí", ou seja, se der um passinho para o lado...
- Dá um passinho para o lado -
- A tua questão pertence ao passado, e eu não lido com o passado.
- Soa-me bastante saudável.
- O quê?
- Não lidar com o passado.
- Tem as suas desvantagens, mas não me digas que nunca experimentaste :o
-.-
- -.-
.--. .... .- ... .. -. --.