Hoje estive a conduzir à chuva, e o instrutor tinha de me avisar para limpar o para brisas com as esfregas de vez em quando, porque eu esquecia-me. E cada vez que o fazia, era para os meus olhos uma sensação equiparável à dos meus pulmões quando inspiro após apneia. No entanto, ao contrário de tal situação (em que tenho consciência de que preciso de ar), eu não fazia ideia que era possível ver melhor o que estava à minha frente na estrada.
Quer dizer, saber sabia, mas inconscientemente. Como eu tinha visto o que se passava à minha frente antes de a chuva cobrir a minha visão, as manchas luminosas que se apresentavam correspondiam na minha cabeça a figuras com contornos perfeitos. Isto tem a ver com a memória, que completa a imagem que captamos, julgo eu.
Agora tenho que ligar isto a um aspecto mais geral da vida. Vamos ver... portanto... aaa....
AH, certo. Só nos apercebemos de como somos ceguetas quando nos põem óculos na cara, e ninguém nos garante que não há óculos melhores, portanto não podemos assumir que vemos bem sem ter a certeza que não estamos a basear-nos na nossa memória. E como basear-nos em algo exterior a nós inclui ter de o interiorizar, é impossível ter a certeza de que estamos a ver bem as coisas!
E como estamos a falar de algo inteiramente ligado ao cérebro, não tem nada a ver com os olhos ou a visão mas sim com a nossa percepção do mundo que nos envolve, sempre imperfeita devido às limitações do (ou de cada) ser humano.
Aqui já devem ter chegado milhões de pensadores, o que me leva a perguntar:
Para quê tentar pensar na verdadeira forma das coisas se o nosso ponto de partida é em si falso?
Se a resposta é "porque tudo o que é até hoje conhecimento parte do ser humano, esse é o ponto considerado verdadeiro", então ponham em todos os livros essa porcaria, não tenho de aceitar o que me enfiam pelos olhos como a verdade absoluta.
"ah mas a verdade absoluta é em si um conceito formado por pessoas"
Ah, ok então retiro o que disse.