Mais importante que ser alguém, é saber que se é alguém.
Mais importante que saber que se é alguém, é saber que se é alguém estupidamente limitado percorrendo a sua vida desajeitada e insaciavelmente à frente do indefinível ritmo do seu verdadeiro ser. Desconheço porém, a indelineável linha que me aproxima da vergonha da consciência deste conhecimento. Serei sempre um tumulto de sentimentos.
Sinto que sei que os outros não sabem da vergonha que sinto. É por isso que sinto vergonha e por isso que não sei se os outros também a sentem. É por isso que escrevo: para me afastar de uma vergonha que sempre caminhará lado a lado comigo presa à sombra do meu rosto. Sentirme-ei momentaneamente melhor.
Mais tarde voltarei a ter vergonha, destes falsos traços poéticos, destas vidas mal contadas, destas cobardes omissões, destes desvios de prazer, destas coisas que me fazem sentir melhor por fingir ser quem não sou.
E medo por permitir que pensem que sou quem de certeza não sou.
No entanto viveremos sempre descolados de nós próprios e presos a esta impotência de vivermos quem somos e hipoteticamente fugir deste ciclo vicioso interminável.