21/03/2013

Pavio

Todos os dias vejo velas que se deixam decapitar pelo vento.
Na minha perspectiva é triste, porque até não parece ser um vento forte.
Na minha opinião é óbvio que não querem continuar acesas.

Tenho pena da cera, e dou por mim a pensar por ela.


"Será que ainda sou vela? Pode ser que sim.
Mas não me iludo, a imagem de vela tem chama.
Sem chama, sou uma vela apagada, não uma vela.

O mesmo fogo que lentamente a eliminava,
Era o fogo que a chorava, gota a gota,
Ao longo da sua cera.
Exteriorizando assim a sua alma.

Que será da cera, agora,
Sem chama,  não é vela,
Sem fogo, não tem alma,
Sem vento, não tem desculpa.
Pobre de mim? Nem sei o que sou. "


É para mim bastante trágico, este conceito de vela apagada. Na minha cabeça vejo um cenário gráfico, explicitamente errado, como as entranhas de um animal na estrada. A desmistificação do homem num objecto comum, as gotas de cera duras numa vela outrora jovem, cheia de rugas.

A morte é tão natural que é natural que o homem a desnaturalize. Queremos vencê-la por meio de tributo. Em cada peça de arte, cada ficção, lá está ela, o fim inevitável. Porquê tanto medo?

Ninguém ainda humano aceita a sua morte nos outros. Isto é um bom sinal, dizem. Sinal de que continuamos empáticos, ainda que a um nível primal.

Nem sei já se existe ironia, nisto de ter que estar vivo para assistir aos outros morrerem. Sei que se algum dia tiver de acender uma vela, vou ter o cuidado especial de não passar em frente a um espelho.