Já alguma vez encararam a escrita como uma grande falésia sobre a qual devem construir uma ponte utilizando apenas materiais recolhidos do seu fundo de maneira a que possam chegar ao outro lado vivos?
Pois, nem eu. Mas conheço pessoal assim, e começo a identificar-me com eles. É no mínimo extremamente frustrante querer - não - precisar de transmitir uma ideia para o papel, enquanto o nosso cérebro luta por satisfazer tanto a integridade do texto como a sede de avançar no processo intelectual em que nos embrenhamos. Era haver uma coisa que nos permitisse demonstrar o que vai na nossa cabeça sem toda essa formalidade. Seria possível, documentar pensamentos estruturados sem estruturar os documentos pensados?
Só para terem uma ideia, não comecei o post desta maneira, apenas me irritou a lembrança de que uma coisa tão parva como a falta de destreza no que toca à escrita possa ter consequências tão chatas como um ligeiro incómodo nocturno ao tentar trocar ideias com o outro lado do ecrã.
Como eu queria começar era assim:
"As aparências enganam/iludem" é uma expressão estúpida.
A sério. As aparências é tudo o que temos. Se elas iludem, não temos nada!
Somos uma raça muito à frente. Inventamos conceitos que não existem na realidade, como por exemplo, "A invenção de conceitos que não existem na realidade". Fujo à contradição da seguinte forma: Sendo a realidade em si uma realidade por nós assim definida, nada existe para lá dela, tudo o que surge de novo cai lá para dentro, porque não existe o fora - incluindo "fora".
Ás vezes penso que apenas estamos muito, muito aborrecidos. Tudo me parece uma grande, grande crise de identidade, não é? Essas tais guerras e guerrinhas, coincidem analogamente - demasiado perfeitamente - com as bulhas na pré. Só um exemplo.
Já repararam que na maioria dos livros (com a excepção dos diários e auto-biografias, etc) o pessoal escreve como se as palavras não viessem deles? É uma maneira engraçada de transmitir uma pseudo objectividade nos assuntos a tratar.
Se bem que a culpa disso está mais no leitor, que às tantas se esquece.
Acho que se abrirmos demasiado os olhos as palpebras dão a volta, trocam, e quando damos por nós temos os olhos novamente fechados.